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Quando tudo começou.

  • 21 de jun. de 2017
  • 2 min de leitura

Era apenas mais um jovem na escola sendo apelidado. Tudo muito novo e ao mesmo tempo muito comum. 15 anos e várias piadinhas sem graça, eu ainda não me conhecia, mas por algum motivo, todos me conheciam muito bem.

A "bichinha", lá vai "ela", "Paulete". No começo foi estranho, era estranho você ter vários nomes e não conhecer nenhum deles. Mas ficou sendo estranho e desconhecido por toda minha adolescência, durou até os dezoito. É, foi aos dezoito que eu comecei a me traduzir.

Não era mais estranho os desejos por garotos e a vontade de voar, como a purpurina, um dos outros apelidos dados na escola.

Precisei me livrar primeiro da angustia que era conviver com meus pais e ter que esconder quem eu era de verdade, seria qualquer pessoa no mundo, menos quem eles realmente esperavam que eu fosse, no processo, a primeira decisão foi sair de casa. Feito isso, criei independência, na verdade, eu já era meio que independente, mas radicalizei a parada. Na minha cabecinha, alugar uma casa, dividir as despesas com uma amiga, iria tirar de mim, o peso de ter que encarar a minha verdade, que não era a verdade de meus pais.

Eu corria da conversa como o diabo corre da cruz, se é que ele corre. Eu nunca achei pertinente ter que sentar e dizer : mãe, eu sou gay. Pai, eu não terei aquele neto que você sonhou.

... e não se fez.

Passar uns meses morando sozinho, depois de ter sido apresentado a vida noturna e aos "boys" que me faziam traduzir-me, recebi a primeira visita de meus pais, exatamente no dia em que eu praticava uma "tradução de si" e estava com a visita de um "amor de primeira noite". Eu sei que talvez você esteja esperando pela parte do texto que eu relato o escândalo, mas não, as relações entre eu e minha família já estavam bem estabelecida, aquele era meu espaço, minha casa e com minhas regras. Os recebi naturalmente, mas continuava achando impertinente ter que me apresentar como um novo filho.

Então, deixei que eles decidissem me conhecer, naturalmente e aos poucos.

Eu nunca precisei chegar e contar, simplesmente eu deixei que meus pais reconhecessem quem foi o filho que eles colocaram no mundo, foram eles que me trouxeram aqui, sem escolhas, sem regras, sem padrões. Sendo eu, apenas.

Eles foram me conhecendo e percebendo que eu não era o filho que eles queriam que eu fosse, mas que eles colocaram no mundo da forma que deveria ser, e que aquele não era o começo de uma relação entre pais e filho assumido, porque na verdade, não existia um começo, simplesmente existia.


 
 
 

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